Que Momento!

Porque quando acontece algo muito marcante na sua vida, o melhor a fazer é respirar fundo e dizer: que momento!

Que Momento!

Porque quando acontece algo muito marcante na sua vida, o melhor a fazer é respirar fundo e dizer: que momento!
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Terra Blog

Categoria: Quem conta um conto...

14.11.07

Gasp!

O pai lia o jornal tranqüilamente na sala, quando chega o filho de sete anos, olhar sorrateiro, como um gato, esperando o melhor momento pra pegar um passarinho:
- Paiê...
- Sim? – respondeu, sem tirar os olhos da página de esportes.
- O que é “foda”?
- GASP! – foi tudo o que conseguiu proferir, antes de engasgar-se com a balinha de menta que tinha na boca.
Atônito, o guri berrava e esmurrava as costas do pai, que, roxo e estupefato, beirava uma síncope no sofá. Depois de dez minutos e três copos d’água que o menino trouxe, conseguiu se recompor e responder:
- Bem... É um remédio.
- Para quê?
- Um relaxante, é isso. Um remédio que adultos usam para ficarem mais calmos, relaxados e felizes.
- Anti-depressivo?
- É, pode-se dizer que sim.
- Ah, bom... Então a vovó toma foda?
- NÃO! Quero dizer, não sei. Por quê?
- É que a mamãe disse que a vovó está com depressão.
- No caso dela, seria outro remédio, meu filho. Mesmo porque, para tua avó, esse remédio está em falta na farmácia. E agora deixa o papai ler o jornal sossegado, certo?
- Tá.
Cinco minutos depois, volta o guri, dessa vez lascando a pergunta sem titubear:
- Pai, e orgasmo, o que é?
Novo GASP, seguido de outras onomatopéias indescritíveis, mas, dessa vez, o menino fora esperto e já trazia consigo um copo d’água, juntamente com um comprimido:
- Toma, pai. Não sei se é foda, mas dizia “calmante” na caixinha.
- Não é isso que tu disseste. Só tua mãe me dá ele, e, mesmo assim, nem sempre tem em casa.
- Como assim?
- Deixa pra lá. Qual foi tua outra pergunta mesmo?
- Orgasmo. O que é?
- Ah, sim. É o efeito que o remédio que te expliquei antes causa.
- Hmmm... Então, quem toma foda, tem orgasmo?
- É, nem todo mundo, né, mas a maioria, sim.
- Ah...
E saiu o garoto, saltitante e feliz por mais um aprendizado. O pai, ainda tonto, tentava entender de onde o filho tinha tirado aquelas dúvidas tão pouco ortodoxas, já que nunca o ouvira falar nisso. Mal conseguira recuperar-se do segundo choque, veio o terceiro:
- E isso, pai, o que é?
Teve medo de erguer os olhos do jornal. E se o menino estivesse mexendo nas suas gavetas? Um sabonete de motel? A tão bem guardada caixinha de Viagra, usada somente em emergências? O que seria?
- Isso o quê, meu filho?
- Esse comprimidão aqui! Jô...jon...JONTEX!
Foi mais do que um GASP. Uma mistura de ARGH, COF e GASP, que resultou num sonoro GLARGCOF, arremessando a bala de menta na cara do ministro Guido Mantega, que estampava a página do jornal que ele lia:
- Passa isso pra cá, filho. Onde tu encontraste?
- No banheiro. É que faltou papel, aí abri a gaveta e...
- Ok, não vem ao caso. Sim, de fato, é um comprimido.
- E pra que serve?
- Para evitar dor de cabeça.
- Ah, bom. A mamãe sempre diz que tinha muita dor de cabeça quando eu estava na barriga dela. Por que o senhor não deu esse comprimido pra ela?
- Me faço a mesma pergunta todos os dias...
- Como?
- Nada, filhote. Vai brincar, vai. Me deixa ler o jornal, sim?
Passaram-se cerca de trinta minutos. O silêncio do menino fez com que ficasse fácil de terminar rapidamente o jornal. Com tanta quietude, o homem adormeceu no sofá. De repente, sentiu um leve puxão na sua calça:
- Paiê...
- O que foi? Não me diga que é mais uma pergunta?
- Não. É que eu estou preocupado.
- Com o quê? – espantava o tom de seriedade da criança.
- Com a mana... Ela tá lá no quarto com o namorado dela há umas duas horas. Já pediu três fodas pra ele, tomou quatro comprimidos daqueles JONTEX e só sabe dizer que não sente nenhum orgasmo. Será que não é ruim tomar tantos remédios assim?
O pai ficou roxo, verde-musgo, azul-índigo, estraçalhou o jornal, fez picadinho do ministro e emitiu uma espécie de GASP que a língua portuguesa desconhece. E voou um namorado porta a fora.
  • criado por  Serrano criado por Serrano
  • Postado em 10:51:39

09.10.07

Dudu

      O despertador do celular tocou às seis e quinze, como todos os dias. O mesmo ritual matinal de pegar o xampu quase que sem olhar, a toalha no varal e dirigir-se ao banheiro. A água do chuveiro exercia o papel efetivo de espantar o sono e iniciar o dia de fato. Após o banho, uma rápida espiada no jornal, ao passo que preparava o leite com Nescau. Notou a diferença somente quando lembrou que não precisaria da mochila, pois não almoçaria no trabalho.

      O nervosismo que antecedeu o pedido de liberação para o chefe fora em vão. Mais do que uma resposta positiva, o patrão apoiara sua iniciativa, considerando até interessante. Errara ao julgá-lo mal. De fato, não haveria maiores problemas em faltar uma manhã, ainda mais em se tratando de uma causa nobre. Não tinha porque temer a repressão de seu superior.

      Desembarcou do ônibus e não precisou esperar o segundo, que o levava para o serviço todos os dias, seguindo diretamente para o local marcado com todos os outros. Aos poucos, chegava gente de todos os lados, trinta e cinco no total. Pensativo, apenas cumprimentava com a cabeça aqueles que lhe dirigiam uma saudação qualquer. Sabia que teria com quem conversar durante a viagem, pois uma amiga também fazia parte do grupo de voluntários. Logo ela chegou, e ele quebrou o silêncio.

      Enquanto o ônibus deslocava-se para Porto Alegre, conversavam animadamente, pondo os assuntos em dia, já que não se encontravam com freqüência. Intimamente, porém, os batimentos cardíacos aceleravam a cada quilômetro rodado. Havia decidido não doar sangue, pois estava mal alimentado, o que o fez lembrar a primeira vez em que doou de estômago vazio. O semblante desesperado da enfermeira chamando a colega, enquanto sua visão embaralhava, mesmo com ele afirmando que estava tudo bem. Segundo a moça, ficara mais branco do que uma folha de papel. Não seria legal passar por um novo vexame, definitivamente.

      Ainda assim, havia o exame de compatibilidade de medula. Toda a esperança de uma vida em seu início depositada dentro de um pequeno tubo de ensaio com alguns mililitros de sangue. Nem conhecia o pequeno Eduardo, tampouco havia lido sobre seu caso no jornal, já que as espiadas no início da manhã continham atenção suficiente apenas para a página dos esportes, única que espantava o sono. Contudo, soubera do caso através de amigas, que explicaram a gravidade do caso. Segundo no Brasil, sexto no mundo, o que urgia pelo maior número de doadores possível, em busca de uma medula compatível.

      Enquanto preenchia a ficha no laboratório, sentia o coração pulsar na veia do pescoço. Tum-tum, tum-tum. A pequena onomatopéia o lembrava o primeiro pensamento que o levara a decidir fazer o exame: a figura do irmão, com seus áureos nove anos, tão inteligente e tão ingênuo ao mesmo tempo. Pensava então no menino à espera de uma salvação para sua vida, tudo isso com apenas quatro meses de existência. Não se conformava em saber que, ao contrário do maninho, uma criança corria o risco de não poder correr na rua, jogar bola com os amiguinhos e todas as outras traquinagens típicas da infância. A vida prega mesmo muitas peças.

      Sentou-se placidamente na sala de espera, aguardando pela sua vez. Seguia conversando com a amiga, mas o pensamento voava longe. Queria ver o bebê, fitar seus pequenos olhinhos, dar o indicador para que ele grudasse firme com sua mão pequenina, como o irmão fazia quando era recém-nascido. Quando isso acontecesse, sentiria com vivacidade que haveria compatibilidade entre seus sangues, tornando-o responsável direto pela continuidade de uma jornada que não poderia terminar tão cedo.

      Um misto de expectativa e angústia tomava conta dos seus sentidos. Um por um, todos eram chamados, e ele permanecia sem escutar seu nome. Estático, observava a televisão que, sem volume, mostrava um coral africano que cantava em qualquer programa matinal de fofocas. Tentava adivinhar a música, bater o pé num ritmo que não sabia qual era, ler os lábios dos cantores, sem sucesso. Às vezes, a vida entoa melodias que não conseguimos escutar.

      Enfim, foi chamado. Trêmulo, sentiu-se muito próximo do desconhecido Eduardo. Dudu, como o chamaria quando se encontrassem para que ele conhecesse seu doador. Sonhava com isto, com o momento em que não seguraria as lágrimas ao receber a notícia da compatibilidade. A convicção e a fé de doar-se por aquele menino abafaram a modéstia que, por sinal, não lhe era muito característica normalmente. Mais do que um pensamento pretensioso, a imensa vontade de ajudar era o que movia cada passo em direção à sala da coleta.

      Tinha veias fartas no braço direito, abria e fechava a mão para que elas saltassem tanto quanto pudessem. Perdera totalmente o medo da agulha. Aliás, por via das dúvidas, olhou para o lado contrário quando a enfermeira passou o algodão com álcool no braço.

      A picada não foi sentida. Esquecera da dor, para concentrar-se unicamente no sangue que a seringa sugava, quase conseguindo escutar o barulho das hemácias locomovendo-se. Apertou o algodão com força, enquanto a mulher enchia os pequenos tubos de ensaio. Para ele, dois tubos. Para Dudu e seus pais, a esperança de ver a vida brotar com saúde e todas as alegrias e peripécias que um filho proporciona.

      Inspirou profundamente e estufou o peito, sentindo-se um mártir. Saiu pelo corredor com o semblante aliviado e a sensação de dever cumprido. Saíra da teoria que tanto pregava de ajudar o próximo, para a prática de efetivamente mudar o mundo ao seu redor com um pequeno, mas significativo gesto. Mal sabia que, através daquele pequeno ato, uma vida já estava salva naquele dia: a sua.

  • criado por  Serrano criado por Serrano
  • Postado em 16:24:45